Com terno e gravata na cor azul, um homem fala para um grupo de fiéis em uma igreja evangélica no centro da capital paulista. Ele lê um salmo, cita passagens bíblicas do livro de Daniel e prega com voz firme: “Quando você tá cansado, quando você tá abatido, lembre-se de uma coisa: você não está sozinho.[…] O Senhor entra com você na fornalha, o Senhor entra com você na cova dos leões. O Senhor liberta você. O Senhor te dá vitória”. Os fiéis respondem com aplausos.Minutos antes, o homem tinha sido apresentado pelo anfitrião do espaço. “Quem já ouviu o governador pregando?”, perguntou o apóstolo Valdemiro Santiago para a plateia da Igreja Mundial do Poder de Deus, naquele 7 de setembro. O homem de terno azul era o governador de São Paulo e candidato à reeleição Tarcísio de Freitas (Republicanos).O “jeito de falar evangélico” do candidato que se define como católico tem relação direta com o histórico familiar de Tarcísio, mas em época de eleição vira estratégia em busca de votos.3 imagensFechar modal.1 de 3Tarcísio diz que São Paulo é do Senhor em agenda na Grande SPEnzo Marcus/ Metrópoles2 de 3Tarcísio de Freitas recebendo orações em culto em igreja de São Bernardo do CampoEnzo Marcus/ Metrópoles3 de 3Tarcísio em igreja de São Bernardo do Campo, no ABC paulistaEnzo Marcus/ MetrópolesFilho de pai católico e mãe evangélica, Tarcísio costuma dizer que foi criado indo à escola dominical aos domingos de manhã e à missa à noite. A influência materna fez com que tivesse facilidade para transitar entre os evangélicos, apesar de se declarar católico.Foi assim em 2022, quando o ex-ministro de Jair Bolsonaro (PL) desembarcou em São Paulo e precisou se apresentar para os paulistas. Nas igrejas evangélicas, Tarcísio modulava seus discursos para aquele público e conquistava o voto dos eleitores.Desta vez, tem sido semelhante. No sábado (19/9), por exemplo, Tarcísio disse que “São Paulo é do Senhor Jesus”, ao visitar a Igreja Batista Vida Plena, em São Bernardo do Campo, no ABC. Os discursos parecem ter algum efeito.Na última pesquisa Datafolha, 59% dos eleitores evangélicos disseram que votariam em Tarcísio. Fernando Haddad (PT) é citado por apenas 20% deste grupo.“Ele se define como católico, mas o que importa é que é um homem que tem um relacionamento com Deus, que tem conhecimento bíblico e que preza os valores cristãos. Por isso, nós, evangélicos, temos grande afinidade com ele”, afirma o apóstolo Estevam Hernandes, líder da Renascer em Cristo, e um dos grandes apoiadores de Tarcísio.Organizador da Marcha para Jesus, o apóstolo convidou Tarcísio para um encontro com membros da Coalizão de Igrejas Evangélicas Apostólicas Global (CIEAG), na véspera do início oficial da campanha. Segundo ele, 123 denominações evangélicas participaram do evento “exatamente para que todos os pastores pudessem ter contato com o governador”. Leia também São PauloTarcísio fala em ampliar Provão Paulista e reformular carreiras nas Etecs São PauloEm agenda, Tarcísio acena a evangélicos com canção gospel: “A Casa é Sua!” São PauloHaddad e Tarcísio buscam eleitorado religioso em agendas de campanha São PauloEm agenda no ABC, Tarcísio fala em metrô e dedica “projetos ao Senhor” Desde que começou oficialmente a campanha, em 16 de agosto, Tarcísio marcou presença em pelo menos sete eventos evangélicos e reforçou o tom religioso em suas falas, de olho neste eleitorado.O candidato nega que esteja em busca do voto desse público. “Minha aderência ao público evangélico é real, é construída ao longo dos anos, ao longo de uma história de vida. Eu não estou indo às igrejas agora. Eu sempre fui”, afirmou, nesta segunda-feira (21/9), após uma agenda de campanha com três eventos evangélicos no fim de semana.Para interlocutores, Tarcísio também repete o discurso. Em uma roda de conversa recentemente, o candidato afirmou que sua mãe costuma dizer que ele tem “um chamado” e “ainda vai ser pastor”. Na sequência, disse que ele mesmo tem essa vontade. Naquele dia, no entanto, o governador também disse que sempre reza a Ave Maria.Professor de Política Comparada na Universidade de Reading, no Reino Unido, e pesquisador do universo evangélico, Victor Araújo explica que Tarcísio, como outros políticos, tem percebido o aumento do movimento conservador na sociedade brasileira, e entendeu que falar com os evangélicos era uma forma de alcançar outros públicos.“Se você for no culto de renovação carismática, não é muito diferente do culto de uma igreja pentecostal. Então, ao falar para os evangélicos, o Tarcísio está falando para a porção dos católicos que, na verdade, tem atitudes muito parecidas com as dos evangélicos”, afirma o pesquisador.Entre os católicos, segundo o Datafolha, Tarcísio marca 51% das intenções de voto contra 30% do petista. Até agora, o candidato foi a apenas uma agenda voltada a esse público, um evento da Canção Nova. A visita foi anunciada na agenda oficial do governador, e não como agenda da campanha.












