A Serra das Esmeraldas é uma serra lendária ou região mineral imaginada no interior da América portuguesa, associada desde o século XVI à existência de grandes jazidas de esmeraldas, pedras verdes, ouro e outros minerais preciosos. A sua localização foi descrita de forma variável em roteiros, cartas e mapas coloniais, sendo geralmente situada nos sertões entre as capitanias de Espírito Santo, Porto Seguro e, posteriormente, nas áreas que viriam a integrar Minas Gerais, sobretudo nas bacias dos rios Doce, Jequitinhonha, Mucuri e São Mateus. A crença na serra integrou o imaginário metalista luso-brasileiro do período colonial e motivou sucessivas entradas e bandeiras de exploração do sertão. Embora nunca tenha sido encontrada como jazida real de esmeraldas nos termos esperados pelos colonizadores, a lenda contribuiu para a interiorização da colonização portuguesa, para o reconhecimento dos sertões orientais e para a formação de roteiros que antecederam a exploração aurífera de Minas Gerais.
Origem da lenda A origem da Serra das Esmeraldas insere-se no contexto das notícias quinhentistas sobre riquezas minerais no interior do Brasil. Desde as primeiras décadas da colonização portuguesa, relatos transmitidos por indígenas, sertanistas e cronistas mencionavam serras resplandecentes, pedras verdes, metais preciosos e lagos ou rios associados a minas ocultas no sertão. Essas notícias foram associadas a diferentes espaços do interior oriental da América portuguesa. No século XVI, partiram de Porto Seguro e da Bahia várias expedições em busca de pedras preciosas, entre elas as de Martim Carvalho, Sebastião Fernandes Tourinho e Antonio Dias Adorno. A tradição colonial atribuiu a algumas dessas entradas o encontro de pedras verdes, posteriormente interpretadas como esmeraldas, embora a identificação mineralógica dessas pedras fosse incerta e, em muitos casos, posteriormente considerada falsa ou duvidosa. No início do século XVII, a lenda ganhou maior definição espacial a partir das notícias atribuídas a Marcos de Azeredo, também referido como Marcos de Azevedo, morador influente da Capitania do Espírito Santo. Segundo o historiador Fabio Paiva Reis, o roteiro ligado a Marcos de Azeredo foi fundamental para consolidar a ideia de uma Serra das Esmeraldas situada no interior da capitania, acessível por caminhos fluviais a partir do rio Doce e de seus afluentes.
Localização imaginada
A Serra das Esmeraldas não corresponde a uma serra moderna de localização consensual. Na documentação colonial, a sua posição variou de acordo com os roteiros, interesses políticos e conhecimentos geográficos disponíveis. Em termos gerais, foi imaginada em zonas de transição entre o litoral do Espírito Santo e os sertões interiores, sobretudo em áreas relacionadas ao rio Doce, ao rio São Mateus ou Cricaré, ao rio Jequitinhonha, ao Mucuri e à Serra dos Aimorés. A cartografia do século XVII representou a serra como um ponto de atração mineral no interior da Capitania do Espírito Santo. Um dos mapas analisados por Fábio Paiva Reis descreve a costa do Espírito Santo até a barra do rio Doce, do Cricaré e de Caravelas, indicando que, a partir do rio Doce, caminhando pouca terra, se entraria na terra das esmeraldas, de acordo com a jornada atribuída a Marcos de Azeredo. A lenda também se aproximou de outras geografias míticas ou semimíticas da América portuguesa, como o Sabarabuçu, a Lagoa Grande ou Paraupava e a serra resplandecente. No imaginário dos colonizadores e sertanistas, essas referências podiam designar lugares diferentes ou sobrepostos, quase sempre ligados à expectativa de encontrar minas comparáveis às riquezas espanholas do Potosí.
Minas Gerais As rotas de penetração, partindo do litoral capixaba ou de São Paulo, atravessavam regiões posteriormente integradas ao território mineiro. A procura da serra esteve relacionada à exploração das bacias dos rios Doce e Jequitinhonha, aos sertões dos Aimorés, ao Serro Frio e a áreas de transição entre Espírito Santo, Bahia e Minas Gerais. A literatura histórica também relacionou a Serra das Esmeraldas à tradição das bandeiras paulistas e à figura de Fernão Dias Pais, conhecido como o "caçador de esmeraldas". Embora a expedição de Fernão Dias, iniciada na década de 1670, não tenha encontrado as esmeraldas esperadas, a busca pelas pedras verdes contribuiu para a devassa de áreas que depois se tornariam centrais na história mineira. No século XVIII, com a descoberta e consolidação das minas de ouro e diamantes, parte do antigo imaginário das esmeraldas foi absorvido pela realidade mineral de Minas Gerais. A serra, que antes era concebida como lugar de riqueza oculta e incerta, passou a aparecer em algumas representações como referência geográfica associada ao interior mineiro, ao Espinhaço, ao Serro Frio ou aos caminhos do nordeste da capitania.
Expedições e documentação colonial A procura da Serra das Esmeraldas mobilizou diferentes agentes da colonização portuguesa. No século XVII, a Coroa portuguesa expediu ordens, patentes e provisões relacionadas ao descobrimento das esmeraldas, tentando organizar entradas que partissem do Espírito Santo, do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Um dos documentos importantes para essa história é a Proposta de Agostinho Barbalho Bezerra, datada de 28 de abril de 1666, sobre a possibilidade de descobrir a Serra das Esmeraldas pelo rio Doce ou pelo rio São Mateus. Agostinho Barbalho Bezerra foi encarregado pela Coroa de diligências relativas às minas de Paranaguá e à Serra das Esmeraldas. A proposta de 1666 é significativa porque mostra que, naquele momento, a serra era concebida como uma meta de exploração alcançável por diferentes vias fluviais, especialmente o rio Doce e o rio São Mateus, ambos associados à penetração no interior do Espírito Santo e aos sertões que comunicavam com a região das futuras Minas Gerais. Outros documentos do Arquivo Histórico Ultramarino mencionam iniciativas semelhantes, incluindo consultas, cartas e representações sobre as minas de esmeraldas, a atuação dos Azeredos, a defesa da Capitania do Espírito Santo e as despesas feitas por particulares e autoridades coloniais em entradas para o interior. Em 5 de junho de 1680, Francisco Gil de Araújo escreveu ao rei D. Pedro II relatando a descoberta da Serra das Esmeraldas.
Roteiro de Lucas de Freitas de Azevedo
No início do século XVIII, a tradição da Serra das Esmeraldas passou a articular-se com os conhecimentos geográficos acumulados pelos sertanistas do Serro Frio, em especial com a figura de Lucas de Freitas de Azevedo. Segundo Carmem Marques Rodrigues, Lucas de Freitas era considerado pela tradição como um dos primeiros povoadores da região, tendo integrado as expedições de Fernão Dias Pais, circunstância que lhe teria permitido reunir conhecimento prático sobre os sertões orientais de Minas. Por volta de 1710, já se encontrava estabelecido nas terras do Serro do Frio, no sítio do Pé do Morro, referido em documentação de sesmaria; as suas terras, por vezes distinguidas como lavras velhas e lavras novas, tornaram-se pontos de referência nos caminhos do Serro Frio, aparecendo tanto em mapas e roteiros sertanistas como na cartografia oficial, frequentemente nas proximidades da localização atribuída às esmeraldas. A importância atribuída a Lucas de Freitas foi reconhecida pela própria administração colonial. Em 1717, uma carta patente de Brás Baltasar da Silveira nomeou-o mestre de campo do descobrimento das esmeraldas e demais pedras preciosas, em atenção ao "cuidado" e à despesa que empregava nessas diligências e à utilidade que delas poderia resultar para a Coroa. Em 1723, já no governo de Lourenço de Almeida, Lucas de Freitas foi novamente encarregado de prosseguir as diligências relativas às esmeraldas, juntamente com o capitão Alberto Dias e Domingos Dias Ribeiro, depois de Garcia Rodrigues Pais abandonar a empresa por idade e problemas de saúde. A relação entre Lucas de Freitas e a tradição cartográfica da Serra das Esmeraldas foi discutida por Júnia Ferreira Furtado a partir do roteiro dos irmãos Nunes, cristãos-novos que circularam pelas Minas nas primeiras décadas do século XVIII. Segundo Furtado, esse roteiro, intitulado da Paragem adonde se acham muitas esmeraldas, foi fornecido por D. Luís da Cunha ao geógrafo francês Jean-Baptiste Bourguignon d'Anville e serviu de base para a representação do rio Doce e do serro das Esmeraldas na Carte de l'Amérique méridionale, de 1748. Nele, o viajante que se encontrasse nas Minas, na conquista de Antônio Dias, deveria passar ao rio Doce; subindo-o para norte, encontraria o rio Assuí e, na margem norte da sua montante, o rio das Esmeraldas, reconhecível por uma cachoeira e uma corredeira na barra. Subindo o Assuí até à nascente, haveria uma lagoa próxima do Serro das Esmeraldas, onde a tradição situava o antigo arraial de Marcos de Azeredo e onde também se afirmava que Fernão Dias Pais teria achado as pedras verdes. O historiador mineiro Adriano Toledo Paiva observa que os próprios irmãos Nunes atribuíram essas informações a um "paulista" que os teria convidado a acompanhá-lo na empresa. Com base nessa referência e na tradição que apresentava Lucas de Freitas como descobridor das esmeraldas do Serro Frio e integrante das diligências de Fernão Dias, Paiva defende que o roteiro dos irmãos Nunes terá sido embasado nos conhecimentos de Lucas de Freitas, que pode ter sido o guia paulista mencionado. A hipótese é relevante porque aproxima o roteiro transmitido a d'Anville, de circulação erudita e diplomática, dos conhecimentos práticos dos sertanistas que percorriam os caminhos do Serro Frio.
O percurso associado a Lucas de Freitas foi representado numa carta anónima conhecida como Carta topográfica da Villa do Principe no Serro Frio e do seu distrito, preservada na Biblioteca Nacional do Brasil. A carta, datada genericamente do século XVIII, é um desenho manuscrito a tinta ferrogálica, com 56 por 65,5 centímetros, pertencente ao conjunto de cartas sertanistas da instituição. Rodrigues identifica-a como um mapa orientado no sentido norte-sul, no qual aparecem o sítio de Lucas de Freitas e o caminho que dali seguia para leste, em direcção ao rio Itamarandiba, de onde se alcançariam os "descobrimentos das esmeraldas". O mapa regista a Vila do Príncipe, actual Serro, e os caminhos que dela partiam em direcção aos sertões do rio Araçuaí e do rio São Mateus, assim como as ligações com o Mato Dentro e os caminhos do Sabará. Também assinala distâncias em léguas entre localidades, além de rios, córregos e ribeirões da região, destacando-se o Jequitinhonha e os seus afluentes diamantíferos, os rios São Mateus e Guanhães, e dois rios do Peixe nos sertões de leste. Na carta, a Vila do Príncipe surge junto ao rio do Peixe Mirim, no sector sudeste do mapa, representada por um conjunto de casas em torno de uma igreja, distinção gráfica que a separa dos arraiais, normalmente assinalados por uma única edificação. A partir da vila, uma linha tracejada segue para oeste e inflecte para norte, atravessando ou acompanhando nascentes e cursos de rios e ribeirões ligados à mineração diamantífera, como os ribeirões das Pedras, Serro, Inferno, Santo Antônio e Remédios. Esse caminho alcança o arraial do Tejuco, prossegue para nordeste paralelo ao rio do Machado, segue até à sua foz no Jequitinhonha Uaçu, onde foi acrescentada uma ponte, e chega ao sítio de Lucas de Freitas. A carta apresenta duas referências à casa ou sítio de Lucas de Freitas: uma em tinta ferrogálica e outra a lápis, esta última situada mais a nordeste, próxima do rio Preto. A partir desse ponto, o caminho prossegue em direcção ao rio Tamarandiba ou Itamarandiba, ao rio São Mateus e à Serra do Itambé, aproximando o roteiro do eixo hidrográfico e montanhoso em que a tradição situava as esmeraldas. Entre os rios Guanhães e Itamarandiba foi acrescentada, a lápis, a inscrição "descobrimento das esmeraldas", interpretada por Rodrigues como indício de que a carta continuou a ser usada em excursões sertanistas voltadas para a procura de riquezas minerais. A carta também mostra a ligação entre a região aurífera do sudoeste e o Serro Frio. O caminho do Mato Dentro juntava-se ao caminho do Sabará e, depois de passar por Congonhas, bifurcava-se: uma rota seguia para Pousos Altos e para a Vila do Príncipe, enquanto outra tomava a direcção de Gouveia e do arraial do Tejuco. Mais a oeste, a partir de Gouveia, seguia o caminho da Garça. Para Rodrigues, a presença dessas vias confirma que a carta não se limitava a indicar um ponto lendário, mas articulava os principais percursos conhecidos entre zonas auríferas, diamantíferas e os sertões onde se projectava a esperança das esmeraldas. O mapa apresenta sinais de uso continuado e de correcções posteriores. Além das duas localizações atribuídas ao sítio de Lucas de Freitas, a carta contém rasuras, diferentes tonalidades de tinta, inscrições a lápis, acréscimos posteriores e alterações na posição de certos elementos. Esses indícios sugerem que não se tratava apenas de uma representação estática do território, mas de um roteiro cartográfico em uso, constantemente corrigido e reaproveitado por sertanistas e viajantes. Outros acréscimos reforçam o carácter prático do documento. Na ligação entre o Jequitinhonha Uaçu e o Jequitinhonha Mirim foi desenhado um círculo com um X no encontro dos rios, que Rodrigues interpreta como uma provável marcação de riqueza ou tesouro, embora reconheça que não há informação segura sobre o seu significado exacto. Também foi acrescentado a tinta o caminho de Santo Hipólito a Gouveia, com a indicação de que a distância entre os dois pontos era de oito léguas, além de um "salto" no caminho entre Gouveia e o Tejuco. Esses elementos mostram que a carta funcionava como roteiro corrigível, no qual sucessivos utilizadores podiam acrescentar distâncias, obstáculos e pontos de interesse. Abaixo do título, a Carta topográfica da Villa do Principe no Serro Frio e do seu distrito contém uma extensa legenda com distâncias em léguas entre a Vila do Príncipe, arraiais, lugarejos, rios e córregos. Para Rodrigues, a escala e a legenda indicam que o objectivo central do mapa era representar os principais percursos do Serro Frio, passando pelas minas de ouro, diamantes e esmeraldas. A presença de linhas horizontais e verticais, interpretadas como linhas de latitude e longitude, aponta ainda para a incorporação de convenções cartográficas europeias em mapas produzidos ou utilizados por práticos do sertão, combinando experiência local, cálculo de distâncias e linguagem cartográfica erudita. A persistência desses roteiros prolongou-se pela segunda metade do século XVIII. Paiva menciona que, em 1752, João de Azevedo Leme e os seus companheiros percorriam os sertões da comarca do Serro Frio em busca de novos descobrimentos de ouro, rumando para leste e norte em direcção a rios, córregos e ribeiros ainda pouco frequentados. O reverendo João Pedro de Almeida, ao comentar a proveniência familiar e espacial desses roteiros, relacionou Azevedo Leme com Lucas de Freitas de Azevedo e Sebastião do Prado Leme, tidos pela tradição como antigos descobridores do ouro no Serro Frio. As expedições de Azevedo Leme seguiram, assim, roteiros ligados à memória familiar e sertanista que dera a Lucas de Freitas a reputação de descobridor das esmeraldas. O mesmo João Pedro de Almeida, em 1792, declarou ao visconde de Barbacena, com base nos argumentos de Lucas de Freitas e em informações de indígenas monhoxós, panhames e malalis com quem convivia, que a Serra das Esmeraldas não poderia ser encontrada. Para Paiva, esse parecer dialogava com a tendência do governo da capitania para desqualificar os antigos roteiros paulistas como "aranzéis da tradição". Ainda assim, a crença nos campos e serras das esmeraldas não desapareceu: continuou a reaparecer em mapas, cartas e projectos de conquista até às primeiras décadas do século XIX, mantendo viva a expectativa de riquezas minerais nos sertões orientais de Minas. A associação entre o roteiro de Lucas de Freitas, a carta da Vila do Príncipe e os relatos recolhidos pelos irmãos Nunes mostra como a Serra das Esmeraldas continuou a ser procurada e representada mesmo depois da consolidação da mineração aurífera e diamantífera em Minas Gerais, permanecendo como referência cartográfica e sertanista, deslocando-se entre a geografia lendária, os roteiros práticos de penetração no sertão e a cartografia erudita europeia do século XVIII.
Interpretação histórica A historiografia interpreta a Serra das Esmeraldas como parte de um conjunto de mitos minerais que marcaram a colonização portuguesa do Brasil. Esses mitos combinavam informações indígenas, expectativas mercantilistas, rivalidade com a América espanhola e o desejo de encontrar minas semelhantes às do Potosí. A crença na existência de serras resplandecentes, lagoas auríferas e pedras preciosas funcionou como força mobilizadora para a expansão colonial, ainda que muitas dessas riquezas nunca tenham sido encontradas nos termos imaginados. No caso da Serra das Esmeraldas, o mito teve efeitos concretos. A sua procura estimulou expedições, justificou pedidos de recursos à Coroa, orientou a produção de mapas, alimentou disputas territoriais e contribuiu para o conhecimento progressivo dos sertões do leste da América portuguesa. Com a descoberta do ouro em Minas Gerais no final do século XVII e início do século XVIII, a centralidade das esmeraldas diminuiu. Ainda assim, a Serra das Esmeraldas permaneceu como referência literária, cartográfica e histórica, sendo posteriormente reinterpretada como uma das imagens fundadoras do processo de interiorização que conduziu à formação das minas e dos sertões de Minas Gerais.
Referências