A escassez de doadores e de órgãos dificulta a realização de transplantes pediátricos no Brasil. Reportagem da Folha de S.Paulo mostra que a recusa das famílias é um dos obstáculos enfrentados pelas equipes de saúde.

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Entre janeiro e julho de 2026, o país realizou 278 transplantes pediátricos de órgãos, segundo o Ministério da Saúde. A baixa quantidade de doadores infantis torna a espera especialmente difícil para crianças que precisam de um novo órgão.

Em 2025, famílias recusaram a doação em 45% dos casos de potenciais doadores, segundo a ABTO. Imagem: Robert Kneschke/Shutterstock

O desafio da doação entre vivos

Encontrar órgãos para crianças pode ser mais difícil porque o tamanho e o peso do doador precisam ser adequados ao receptor. Segundo Eduardo Antunes da Fonseca, diretor do departamento de transplante hepático do Hospital Sírio-Libanês, apenas cerca de 2% das notificações de doadores falecidos correspondem a crianças.

Foi nesse cenário que Felipe Oliveira Costa, de 7 anos, precisou recorrer à doação em vida. Depois de uma reação medicamentosa que evoluiu para cirrose e insuficiência hepática, o menino entrou na lista de espera por um transplante de fígado.

Como nenhum órgão compatível apareceu, o pai, Abimael Maurício Oliveira Silva, decidiu doar parte do próprio fígado. Para realizar o procedimento, precisou perder peso e passou por preparação médica.

“Como não apareceu, conversamos com o pai, que se prontificou a doar parte do fígado ao filho. Ele poderia morrer esperando pelo transplante”, afirmou Fonseca à Folha.

A doação em vida é permitida para adultos juridicamente capazes e saudáveis, desde que o procedimento não coloque sua própria saúde em risco. É possível doar um dos rins e parte do fígado, da medula ou dos pulmões, conforme avaliação médica.

Como funciona a fila pediátrica

O Brasil adota uma lista única de espera para transplantes pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A posição de cada paciente não depende apenas de quando ele entrou na fila. Os critérios técnicos e clínicos, a compatibilidade entre doador e receptor e, no caso das crianças, o tamanho do órgão em relação ao corpo do paciente são considerados na definição de quem pode receber o órgão.

O país tem 829 serviços de saúde autorizados a realizar transplantes de órgãos. Em 2025, 70 deles fizeram transplantes pediátricos.
Naquele ano, foram registrados 589 transplantes pediátricos: 61 de coração, 211 de fígado, dois de pulmão e 315 de rim. Entre janeiro e julho de 2026, foram 278 procedimentos: 24 cardíacos, 114 hepáticos e 140 renais.
Mais da metade dos transplantes pediátricos, 53%, utiliza órgãos de doadores entre 11 e 17 anos, segundo o Ministério da Saúde. A doação de órgãos de crianças depende da autorização dos dois pais, quando vivos, ou do responsável legal.
Conversar em família sobre a intenção de doar pode ajudar a reduzir recusas, segundo os especialistas citados na reportagem. – Imagem: izzuanroslan/Shutterstock
O peso da decisão familiar
Em 2025, as famílias de potenciais doadores recusaram a doação em 45% dos casos, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). Para especialistas, a situação é particularmente delicada quando o possível doador é uma criança.
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Fonseca explica que muitas mortes encefálicas infantis ocorrem após afogamentos ou acidentes que provocam parada cardiorrespiratória. Nesse momento, a família pode estar profundamente abalada quando é abordada sobre a possibilidade de doação.
Grande parte das mortes encefálicas infantis acontece por afogamento ou acidente que determina uma parada cardiorrespiratória. A família fica muito abalada e, quando você faz a abordagem, muitas vezes a resposta é negativa.
Eduardo Antunes da Fonseca, diretor do departamento de transplante hepático do Hospital Sírio-Libanês, à Folha.
Entre adultos, José Sampaio, cirurgião responsável pelo Serviço de Transplante Hepático do Hospital Pequeno Príncipe, aponta o desconhecimento sobre a vontade do potencial doador como um fator frequente. Por isso, ele defende que as famílias conversem previamente sobre o assunto.
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“Aí cabe campanha de esclarecimento para estimular as famílias a conversarem sobre qual seria a decisão de cada um”, disse Sampaio.
Valdir Antonelli
Valdir Antonelli é jornalista com especialização em marketing digital e consumo.
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Tags: crianças e adolescentes doação de órgãos ministério da saúde transplante de órgãos

