Reinaldo Azevedo

Imagem da matéria: Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva
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Derrotados nas urnas, reacionários testarão os limites; a resistência democrática precisa se estruturar, e mobilização tem de continuar

Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva
Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva · Imagem: Source: www.metropoles.com

Reinaldo Azevedo

Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva
Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva · Imagem: Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva

25/10/2026 21:31

Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva
Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva · Imagem: Source: www.metropoles.com

Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva

Com 99,85% dos votos apurados, Lula, do PT, venceu a eleição presidencial com 51,76% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro, do PL, ficou com 48,24%. A catástrofe anunciada, “O Dia Depois de Amanhã”, não veio. Mas o filme não acabou. Vamos ver a sanha com que a extrema direita batida nas urnas tentará reescrever o resultado, deslegitimar o vencedor e manter viva a lógica que enxerga adversários como inimigos a destruir, com todos os riscos institucionais que isso acarreta. “Não sabendo ser impossível, Lula foi lá e fez.” Ou será que o deputado André Janones (Rede-MG) sabia ser possível? Ao quarto mandato, o presidente soma outro ineditismo: nunca ninguém havia vencido uma eleição chegando em segundo lugar no primeiro turno. Aconteceu.

Os sinais da campanha do herdeiro político de Jair Bolsonaro — condenado por tentativa de golpe e hoje em prisão domiciliar — foram péssimos, assim como a barbárie moral promovida por seus seguidores nas redes. A resistência democrática, que ganhou volume na corrida do segundo turno, mostrou que tem fôlego. Ainda assim, como dizem, “a luta continua”.

A democracia brasileira recuou, por ora, da linha de risco. Felizmente, não preciso de malabarismos retóricos para criticar a ideologia mixuruca hoje dominante na análise política, a do “nem-nem” entre a civilização e a fascistização. Se as duas opções se equivaliam, por que tanta gente viveu esta eleição como decisiva?

A pergunta que se coloca agora aos democratas é como lidar com uma mistura exótica que não desapareceu com a derrota: a soma da Internacional da Extrema Direita, que assola todas as democracias, com a vocação — como direi? — dinástica de uma família que fagocitou a direita e confunde o país com o quintal de casa. A derrota do dito “Zero Um” é mais do que um resultado eleitoral: é o freio ao triunfo do ressentimento e da vendeta de golpistas. Mas freio não é fim.

Alguém poderia indagar: “Ah, Reinaldo, isso significa que todos os que votaram em Flávio são tomados por esse ressentimento?” É certo que não. Quase metade dos que votaram o escolheu. Aqui se abre outra chave para entender estes tempos: por que tantos votam contra os próprios interesses?

A resposta está nos clássicos. “A Ideologia Alemã”, de Marx e Engels, ainda é a melhor obra sobre o modo como uma guerra de valores pode mascarar disputas objetivas e distorcer a percepção da realidade. O livro foi escrito entre 1845 e 1846, mas o texto completo só veio a público em 1932. Nele se lê:

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“A produção das ideias, das representações e da consciência está, de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui como emanação direta de seu comportamento material. O mesmo vale para a produção espiritual, tal como esta se manifesta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica etc. de um povo. OS HOMENS SÃO OS PRODUTORES DE SUAS REPRESENTAÇÕES, DE SUAS IDEIAS ETC., MAS [SÃO] OS HOMENS REAIS E ATIVOS, TAL COMO SÃO CONDICIONADOS POR UM DETERMINADO DESENVOLVIMENTO DE SUAS FORÇAS PRODUTIVAS E PELO INTERCÂMBIO QUE A ESTE CORRESPONDE, ATÉ SUAS FORMAÇÕES MAIS AMPLAS. A consciência não pode ser jamais outra coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real.

E se, em toda a ideologia, os homens e suas relações aparecem invertidos como numa câmara escura, tal fenômeno decorre de seu processo histórico de vida, do mesmo modo que a inversão dos objetos na retina decorre de seu processo de vida diretamente físico.”

Chamo a atenção para o trecho que decidi transcrever em letras maiúsculas. O pensamento progressista precisa aproximar-se desse homem real e, no governo, terá meios para isso, se quiser usá-los. Com ou sem algoritmos, os instrumentos de manipulação estão entre nós, como dado estrutural da vida social e política, desde as primeiras formas de dominação. Nunca foram, é verdade, tão eficientes.

Daí outro desafio da resistência democrática, que passa a ser também responsabilidade de governo: organizar-se no território sem lei dos algoritmos, colonizados de longa data pela direita radical, com o estímulo mais do que explícito das “big techs”. A um cenário que se afigura distópico será preciso responder com uma forma de organização ainda um tanto estranha ao próprio PT, que seguirá sendo o núcleo do enfrentamento a essa voragem e que, depois de ganhar, não pode confundir triunfo eleitoral com hegemonia.

Para os devotos do “Capitão”, a democracia e o Estado de Direito sempre foram estorvos, meras formalidades a serem superadas por atos de vontade. O projeto era de uma clareza solar e de uma vulgaridade espantosa: conquistar a maioria do Congresso para aparelhar os órgãos de controle democrático, muito especialmente o Judiciário. Lula terá grandes dificuldades, especialmente no Senado. Aqui, de novo, a vigilância cívica será indispensável.

Há em “O Leopardo”, de Lampedusa, a máxima célebre de Tancredi: “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. Alguém poderia dizer: “Bem, os bolsonaristas estão nessa!” Não, queridos! O troço é bem mais complexo. Na reta final da campanha, Flávio e seus seguidores até falaram a linguagem comportada do respeito às regras. Era um “gattopardismo” pelo avesso: em vez de fingir mudança para preservar privilégios, o bolsonarismo fingiu normalidade para promover a ruptura, usando eleições, instituições e o vocabulário da legalidade para esvaziá-las por dentro. Fora do poder, será testado: a linguagem comportada sobrevive ao resultado ou era só figurino de campanha? Os ministros André Mendonça e Nunes Marques seguirão sendo os melhores exemplos desse método, com a conivência de amplos setores da imprensa.

O bolsonarismo continuará na oposição a partir de 5 de janeiro, e oposição é papel legítimo numa democracia. Ilegítimo é não reconhecer as regras do jogo. Os que se mobilizaram no segundo turno em favor de Lula demoraram um tanto para despertar, mas o fizeram a tempo de saber que a empreitada é possível. O resultado demonstrou que há energia para o embate, mas essa mobilização tem de se estruturar em vigilância jurídica e combate cotidiano. Quem ganhou não pode se desmobilizar.

Não há espaço para o otimismo ingênuo dos que acham que o triunfo de Lula vai moderar os reacionários. A hidra da extrema direita não se domestica nem morre numa eleição: corta-se uma cabeça, e outras nascem. É insaciável. Nós, os democratas, também temos de ser.