Camille Sée, nome completo Camille Salomon Sée (Colmar, 10 de março de 1847 – Paris, 20 de janeiro de 1919), foi um jurista e político republicano francês. Deputado pelo Sena de 1876 a 1881 e posteriormente membro do Conselho de Estado, é especialmente conhecido como promotor da lei de ensino secundário feminino de 1880, que passou a ser chamada de «lei Camille Sée».

Biografia

Origem e formação Filho de Gerson Sée, agente de negócios de família judia originária da Alsácia, Camille Salomon Sée realizou seus estudos na Faculdade de Direito de Estrasburgo. Laureado no «Concurso de direito francês», inscreveu-se em 1869 como advogado no barreau de Paris, trabalhando como secretário de M. Groualle, advogado junto ao Conselho de Estado e ao Tribunal de Cassação. Era sobrinho e genro de Germain Sée, médico e membro do Consistório Central Israelita de França. Em 1869, casou-se com a filha deste, sua prima-irmã Adèle-Louise Sée, numa cerimônia que contou com a presença de personalidades da elite política republicana: Victor Duruy, Ernest Picard, Théophile Roussel e o conselheiro de Estado Pierre-Alfred Blanche, secretário-geral da prefeitura do Sena.

Carreira pré-parlamentar Exibindo convicções republicanas, Sée conheceu uma carreira fulminante com a queda do Segundo Império. Em 10 de setembro de 1870, aos 23 anos, foi nomeado secretário-geral do Ministério do Interior junto a Léon Gambetta. Na ausência deste, durante as revoltas de 31 de outubro de 1870, o secretário-geral decidiu reunir a guarda nacional de Paris para proteger o governo, que conseguiu escapar do Hôtel de Ville sitiado. Foi felicitado oficialmente pelo ministro Ernest Picard por sua ação. Demitiu-se desse cargo em 18 de fevereiro de 1871. Nomeado subprefeito de Saint-Denis em 15 de junho de 1872, exerceu o cargo por doze meses, enviando sua demissão por ocasião da queda de Adolphe Thiers em 24 de maio de 1873. Foi durante esse período que tomou contato com os estabelecimentos de ensino feminino que viria a transformar.

Carreira parlamentar Foi eleito deputado pelo Sena em 23 de abril de 1876, pela 1.a circunscrição de Saint-Denis, com 6 308 votos (12 567 votantes, 18 876 inscritos) contra 5 703 de Édouard Bonnet-Duverdier. Sucedeu a Louis Blanc, que optara pela 5.a circunscrição de Paris. Inscrito nas fileiras da Gauche républicaine, foi um dos 363 deputados que recusaram o voto de confiança ao ministério de Broglie durante a Crise de 16 de maio de 1877. Foi reeleito em 14 de outubro de 1877 com 13 429 votos (15 132 votantes, 19 114 inscritos), tornando-se secretário da Câmara e membro de diversas comissões. Não foi reeleito nas eleições de 4 de setembro de 1881, obtendo apenas 1 471 votos contra 10 326 do radical Eugène Delattre e 129 de Epailly.

A lei de 1880

Elaboração da proposta Antes da lei, as jovens francesas que desejavam prosseguir os estudos não dispunham de outra opção além dos estabelecimentos confessionais ou dos *cours secondaires* criados em 1867 por Victor Duruy, ministro da Instrução Pública de Napoleão III. A Igreja Católica detinha, na prática, o monopólio da formação feminina secundária. A lei Sée rompeu esse monopólio: nos novos liceus públicos, os cursos de religião foram substituídos por cursos de moral laica. Durante seu mandato, Sée sensibilizou-se profundamente com as questões do ensino, interessando-se em particular pelo funcionamento das maisons d'éducation de la Légion d'honneur de Saint-Denis e de Écouen, estabelecimentos de ensino feminino que conhecera como subprefeito. Convencido da necessidade de garantir igualdade de instrução entre rapazes e raparigas — estas ainda privadas de ensino secundário público —, travou durante seu mandato uma árdua batalha parlamentar nesse sentido. Em 28 de outubro de 1878, depositou na Câmara uma proposta de lei sobre o ensino secundário das jovens. Em maio de 1880, apresentou ainda uma proposta sobre a capacidade civil da mulher. Para elaborar sua proposta, buscou referências internacionais. Sobre os Estados Unidos, escreveu em seu relatório: «Não somente os Estados Unidos dão igualmente instrução a uns e outros, mas dão-lhes a mesma instrução, e dão-na em geral no mesmo estabelecimento. A "co-educação dos sexos" é, nos Estados Unidos, a educação preferida.» Referiu-se igualmente à Suíça — «A República suíça como a República americana proclamou iguais diante da instrução o homem e a mulher» —, bem como à Alemanha e à Itália, países que avaliava como mais avançados que a França na educação das mulheres. O relatório de Paul Broca relativo à proposta foi publicado no Journal officiel de 19 de julho de 1880. Após a vitória dos republicanos nas eleições senatoriais de 1880, a proposta foi finalmente debatida sob o governo de Jules Ferry.

Tramitação e críticas A proposta enfrentou oposição virulenta dos partidos conservadores. A ativista Hubertine Auclert criticou a ausência de matérias úteis à autonomia profissional feminina: «Enquanto a instrução não for para a mulher um meio de recursos pecuniários, os pais não pensarão em fazer sacrifícios para instruir suas filhas, mas para dotá-las.» A proposta foi debatida em sessão pública perante o Senado nos dias 20 e 22 de novembro de 1880. Uma segunda deliberação decorreu nos dias 9 e 10 de dezembro de 1880.

Promulgação e conteúdo A lei foi promulgada em 21 de dezembro de 1880 pelo presidente da República Jules Grévy, publicada no Journal officiel de 22 de dezembro e contrassinada por Jules Ferry, presidente do conselho e ministro da Instrução Pública e das Belas-Artes. Instituía colégios e liceus públicos femininos cujo programa era, no entanto, diferente do dos estabelecimentos masculinos. O próprio Camille Sée definira os princípios orientadores: «É preciso escolher o que pode ser-lhes mais útil, insistir no que mais convém à natureza do seu espírito e à sua futura condição de mãe de família, e dispensá-las de certos estudos para dar lugar aos trabalhos e ocupações do seu sexo. As línguas mortas são excluídas; o curso de filosofia é reduzido ao curso de moral; e o ensino científico é tornado mais elementar.»

Desdobramentos No ano seguinte, Sée atuou na criação da École normale supérieure de jeunes filles (lei de 29 de julho de 1881), instalada em Sèvres, cuja primeira diretora foi Julie Favre, viúva do antigo ministro Jules Favre. Fundou e dirigiu a revista L'Enseignement secondaire des jeunes filles (ISSN 2016-8713), publicada entre 1884 e 1925 em 83 números, com o objetivo de incentivar a criação de novos liceus femininos em toda a França. No âmbito parlamentar, destacou-se ainda por fazer Paris renunciar à extensão do cimetière de la Chapelle — incluído em Saint-Denis desde a anexação da maior parte da comuna de La Chapelle a Paris em 1860 —, êxito que Clichy, Bagneux e Pantin não conseguiram obter.

Expansão da rede de liceus A lei teve impacto imediato e progressivo. O primeiro liceu de jovens a abrir foi o de Montpellier, em 1882. Entre 1881 e 1896 foram criados 32 liceus e 28 colégios femininos em toda a França; em 1900 já existiam 40 liceus; em 1907 contavam-se 103 estabelecimentos (47 liceus e 56 colégios); em 1931 o número chegou a 206 (74 liceus, 97 colégios e 35 cursos secundários). Em Paris, os cinco primeiros liceus femininos — Fénelon, Racine, Molière, Lamartine e Victor Hugo — foram criados entre 1883 e 1895, inteiramente a cargo do Estado. Apesar do crescimento da rede, a paridade curricular com os rapazes só foi alcançada em 1925, quando os programas femininos foram equiparados aos masculinos. Os liceus femininos existiram de forma separada até os anos 1960, quando a mixidade se generalizou em todos os estabelecimentos. Apoiou ainda o prefeito de Montpellier, Alexandre Laissac, na criação, em 11 de outubro de 1881, do Liceu de Jovens de Montpellier — o primeiro da França —, hoje denominado Lycée Georges-Clemenceau.

Carreira posterior e morte Após sua derrota nas eleições legislativas de 1881, Sée retornou ao barreau e ingressou no Conselho de Estado. Foi nomeado cavaleiro da Legião de Honra em 5 de fevereiro de 1884 e promovido a oficial em 14 de julho de 1899. Faleceu em 20 de janeiro de 1919 em Paris e foi inumado em 24 de janeiro de 1919 na divisão israelita (divisão 3) do Cimetière de Montmartre.

Legado Dois liceus franceses levam o nome de Camille Sée: o Lycée Camille-Sée no 15.° arrondissement de Paris e o liceu politécnico regional de Colmar, sua cidade natal. Uma rua de Colmar também foi batizada com seu nome em sua homenagem.

Obras L'Université et Madame de Maintenon. Paris: Léopold Cerf, 1894. xxxv-185 p. (OCLC 645387581; leitura online no Gallica) L'Enseignement secondaire des jeunes filles en Belgique. Paris: Léopold Cerf. 48 p. (OCLC 58803508) L'Enseignement secondaire des jeunes filles (revista). Paris: Léopold Cerf, 1884–1925. 42 anos disponíveis, 83 números (ISSN 2016-8713; leitura online no Gallica)

Ver também Jules Ferry Terceira República Francesa Gabinete Ferry I

Referências

Ligações externas «Biografia de Camille Sée no site do Judaísmo da Alsácia e da Lorena» «Proposta de lei de Camille Sée – Gallica / BnF» «Lei de 21 de dezembro de 1880 (Journal officiel) – PDF» (PDF)